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Tag: economia digital

  • Steam sob ataque: práticas anticompetitivas?

    Steam sob ataque: práticas anticompetitivas?

    Uma ação coletiva histórica no Reino Unido, representando potencialmente 14 milhões de jogadores, obteve uma vitória processual crucial contra a Valve Corporation, dona da plataforma Steam. O Tribunal de Recurso da Concorrência (CAT) de Londres decidiu que a alegação de práticas comerciais anticompetitivas pode prosseguir para julgamento pleno, rejeitando os argumentos da Valve para bloqueá-la na fase de certificação . A ação, movida pela defensora de direitos digitais Vicki Shotbolt, busca danos coletivos que podem chegar a 656 milhões de libras esterlinas (aproximadamente R$ 4,7 bilhões ou US$ 898 milhões). O caso coloca sob escrutínio os pilares centrais do modelo de negócios da Steam, incluindo sua comissão de 30% e regras que, segundo a acusação, impedem a concorrência justa e inflam os preços para os consumidores britânicos.

    A Corte dá sinal verde para um confronto épico

    Em 26 de janeiro de 2026, o Tribunal de Recurso da Concorrência do Reino Unido emitiu um julgamento que ecoou pelos círculos jurídicos e da indústria de jogos: a ação coletiva Vicki Shotbolt Class Representative Limited contra Valve Corporation recebeu aprovação para avançar . Esse não é apenas mais um processo contra uma grande empresa de tecnologia; é um ataque direto ao que os autores da ação descrevem como um monopólio arraigado no mercado de distribuição de jogos para PC.

    A ação, aberta em 2024, alega que a Valve, através da sua ubíqua plataforma Steam, abusou de sua posição dominante, resultando em preços artificialmente altos para milhões de jogadores no Reino Unido . A decisão do tribunal de conceder uma “Ordem de Procedimentos Coletivos” (CPO) em base opt-out (exclusão voluntária), o que significa que todos os consumidores no Reino Unido que compraram jogos para PC ou conteúdo adicional entre junho de 2018 e junho de 2024 estão automaticamente incluídos na ação, a menos que decidam sair ativamente .

    O que está em jogo?

    • Para os jogadores: A possibilidade de compensação por supostos preços inflacionados e um precedente que pode forçar mudanças estruturais na maior loja digital de jogos para PC.
    • Para a Valve: Uma batalha legal multibilionária que questiona a legitimidade de suas práticas comerciais centrais e pode impactar significativamente seu modelo de receita.
    • Para a indústria: Um caso que pode redefinir os limites da concorrência no espaço digital, com implicações potenciais para outras gigantes como Apple e Google, que enfrentam processos semelhantes por taxas de suas lojas de aplicativos.
    Diagrama cronológico da ação coletiva contra a Steam no Reino Unido, destacando eventos principais: início do período relevante para compras em junho de 2018, ação coletiva movida por Vicki Shotbolt em 2024, audiência no Tribunal de Recurso da Concorrência (CAT) em outubro de 2025, e a concessão da Ordem de Procedimentos Coletivos (CPO) pelo tribunal em 26 de janeiro de 2026.

    Os Três Pilares da Acusação Contra a Valve

    O coração da ação coletiva são três alegações interligadas de abuso de posição dominante, detalhadas no julgamento do CAT . Os demandantes argumentam que estas práticas, em conjunto, criam um ciclo que sufoca a concorrência e prejudica o consumidor.

    Tabela 1: As Três Principais Alegações de Abuso na Ação Coletiva

    Alegada Prática AbusivaDescrição ResumidaImpacto Alegado no Consumidor
    Obrigações de Paridade de Plataforma (PPOs)Cláusulas contratuais que proíbem publicadoras de vender jogos ou conteúdo em outros canais de distribuição em termos melhores (ex.: preço mais baixo) do que os disponíveis na Steam.Elimina a possibilidade de descontos reais em lojas concorrentes, uniformizando os preços no mercado e impedindo a concorrência por preço .
    Cláusulas Anti-Desvio (Anti-Steering)Exigência de que compras dentro do jogo (DLCs, itens cosméticos, etc.) para títulos distribuídos na Steam sejam processadas exclusivamente através da infraestrutura de pagamento da Steam.“Prende” o jogador ao ecossistema Steam para todas as compras futuras de um jogo, impedindo que ele procure ofertas de DLC em outras lojas, mesmo que tenha comprado a chave do jogo base em outro lugar .
    Comissões Excessivas e Preço InjustoA cobrança de uma comissão de até 30% sobre as vendas, que seria um preço abusivo e não refletiria as condições de um mercado competitivo. Esta comissão seria então repassada aos consumidores.Resulta em preços finais mais altos para jogos e conteúdo adicional para PC, já que as desenvolvedoras incorporam a alta taxa da Steam no preço de venda .

    A promotora do caso, Vicki Shotbolt, resume o impacto: “Milhões de jogadores que compraram jogos habilitados para Steam agora têm a chance de buscar reparação e responsabilizar a Valve. Qualquer pessoa submetida a práticas injustas e cobranças excessivas está automaticamente incluída na ação” .

    A defesa da Valve e a resposta do tribunal

    A Valve opôs-se vigorosamente à certificação da ação coletiva, apresentando uma série de argumentos processuais e técnicos na tentativa de impedir que o caso avançasse para julgamento. O tribunal, no entanto, considerou cada um deles e permitiu que o caso seguisse adiante .

    A questão das “Steam Keys” e a comissão efetiva: A Valve argumentou que a existência de “Steam Keys” – códigos vendidos por terceiros (como Humble Bundle) e resgatados na Steam, sobre os quais a Valve não cobra comissão – tornava “desconhecida e não possível conhecer” a comissão média real (ou “participação efetiva na receita”) que a empresa obtém . Isso, segundo a Valve, inviabilizaria o cálculo dos danos em uma ação coletiva. O CAT reconheceu que as chaves são uma “característica ligeiramente incomum”, mas considerou que seu impacto seria limitado e que eventuais lacunas nos dados poderiam ser resolvidas por “suposições razoáveis” com base nas informações disponíveis .

    A metodologia para provar o dano das PPOs: A Valve alegou que os demandantes não tinham um método empírico adequado para demonstrar como as supostas cláusulas de paridade de preço distorciam o mercado e aumentavam os preços, baseando-se em teoria econômica “nebulosa” . O tribunal discordou, afirmando que o perito dos demandantes propôs uma abordagem que buscaria reunir evidências empíricas “a serem testadas no julgamento”, o que é suficiente na fase de certificação .

    A certeza da Classe (incluindo menores de idade): A Valve questionou como seria possível identificar os membros da classe, especialmente considerando uma “alta proporção de menores” que podem não ter registros de suas compras . Em resposta a preocupações do próprio tribunal, os demandantes revisaram a definição da classe, vinculando-a mais diretamente à parte que sofreu o prejuízo. Com isso, o tribunal rejeitou o desafio da Valve nesta frente .

    Após analisar estes pontos, o tribunal concluiu que os critérios para uma ação coletiva foram satisfeitos, descrevendo o caso como um “paradigma” perfeito para o regime opt-out: “uma grande classe de consumidores afetados por uma [alegada] violação da lei de concorrência… mas envolvendo pequenas quantias para cada indivíduo, o que tornaria cada caso individual economicamente inviável” .

    Fluxograma representando as acusações contra a Steam, detalhando o ciclo de comissões e práticas de venda. Mostra como a plataforma Steam retém 30% de comissão sobre jogos, o que impede desenvolvedores de oferecerem preços mais baixos em outras lojas. A estrutura também ilustra as compras de DLCs que somente podem ser feitas por meio da Steam, reforçando a dependência dos jogadores na plataforma.

    O contexto mais amplo e as próximas etapas

    Este caso britânico não é um incidente isolado. Ele ocorre em um momento de escrutínio regulatório global sobre as práticas de grandes plataformas digitais. A Valve também enfrenta uma ação coletiva semelhante nos Estados Unidos, consolidada no final de 2024, onde alegações parecidas de monopólio estão sendo debatidas . No Reino Unido, a ação junta-se a casos separados contra a Apple e o Google por suas taxas nas lojas de aplicativos, indicando uma tendência clara de desafio legal ao poder das “gatekeepers” digitais .

    O que vem a seguir? A certificação é apenas o primeiro grande passo. A equipe legal de Vicki Shotbolt, liderada pela sócia Natasha Pearman do escritório Milberg London, declarou-se “deliciada” com a decisão, que consideram um “primeiro passo importante” rumo ao julgamento . Não há uma data marcada para o julgamento pleno, e o processo pode se estender por vários anos, com possibilidade de recursos . Se os demandantes forem bem-sucedidos no final, a Valve poderá ser obrigada a pagar uma compensação colossal e, potencialmente, a alterar fundamentalmente suas práticas comerciais no Reino Unido e além.

    Uma batalha que pode redesenhar o mercado

    A decisão do Tribunal de Recurso da Concorrência britânico de permitir que a ação de 656 milhões de libras contra a Valve prossiga marca um ponto de inflexão. Vai além de uma simples disputa por compensação financeira; trata-se de um teste de estresse jurídico para o modelo de negócios que sustentou o domínio da Steam no PC gaming por quase duas décadas.

    Para os milhões de jogadores incluídos na ação, o caso oferece uma via rara para questionar coletivamente práticas de mercado que, individualmente, parecem pequenas (estimadas entre 22 e 44 libras por pessoa), mas que, no agregado, representam bilhões em lucros. Para a indústria, serve como um sinal de que o período de operação sem contestação de plataformas digitais dominantes pode estar chegando ao fim. Seja qual for o resultado final, o simples fato de este caso chegar ao tribunal já enviou uma mensagem poderosa: até os gigantes mais estabelecidos do mundo digital não estão acima do escrutínio da lei. A batalha pela alma do mercado de PC gaming acaba de entrar em uma fase nova e decisiva.

    Os consumidores do Reino Unido que desejam obter mais informações ou acompanhar o caso podem visitar o site oficial da ação: steamyouoweus.co.uk .

    Fontes consultadas:

  • Sua próxima memória RAM será (Chinesa?)

    Sua próxima memória RAM será (Chinesa?)

    Com preços de memória RAM e SSDs atingindo níveis historicamente elevados, uma revolução silenciosa começa a abalar um mercado dominado há décadas por poucos nomes. Empresas chinesas, antes vistas com desconfiança, avançam rapidamente sobre o território de gigantes como Samsung, SK Hynix e Micron. Financiadas pelo Estado e impulsionadas por uma estratégia nacional de longo prazo, essas novas fabricantes prometem aliviar o bolso do consumidor — mas levantam questões profundas sobre dependência tecnológica e geopolítica.

    Afinal, a China está prestes a ditar o preço da sua próxima atualização de PC?

    Uma ilustração mostrando grandes figuras esculpidas em pedra representando as empresas Samsung, SK Hynix e Micron, que estão posicionadas à esquerda, enquanto à direita, um gráfico mostra uma tendência de crescimento da participação de mercado da China, com barras em ascensão. Duas figuras azuis, representando empresas chinesas como CAM e RTC, estão correndo em direção ao gráfico com uma expressão de determinação, simbolizando a competição no setor. O gráfico apresenta dados de 2016 a 2025, destacando uma participação de mercado superior a 5% para a China.

    A disrupção de um clube fechado

    Por décadas, o mercado global de memória foi um oligopólio altamente concentrado. Essa realidade começa a mudar. A CXMT (ChangXin Memory Technologies), fundada apenas em 2016, já alcançou cerca de 5% do mercado global de DRAM, segundo análises recentes da TrendForce sobre a evolução do setor entre 2024 e 2025.
    O dado é significativo não apenas pelo volume, mas pela velocidade: em menos de uma década, a empresa reduziu a defasagem tecnológica em relação aos líderes para aproximadamente três anos e já produz memórias DDR5, algo antes considerado inalcançável para novos entrantes chineses.

    No segmento de NAND flash, usado em SSDs, o avanço foi ainda mais agressivo. A YMTC (Yangtze Memory Technologies) chegou a atingir participação próxima de dois dígitos no mercado global, com sua arquitetura proprietária chamando a atenção de grandes integradoras internacionais. Em 2022, reportagens do Nikkei Asia revelaram que a Apple chegou a negociar o uso de chips NAND da YMTC, antes de a empresa ser incluída nas listas de restrição do governo americano.

    A ideia de que “silício chinês” é sinônimo de atraso tecnológico começa a ruir — e rápido.


    O punho de aço estatal por trás do avanço

    Esse crescimento não é fruto apenas de empreendedorismo privado. Ele é a materialização da estratégia “Made in China 2025”, que identificou a dependência de semicondutores estrangeiros como uma vulnerabilidade estratégica.
    Para corrigi-la, Pequim acionou seu principal instrumento financeiro: o Fundo Nacional de Circuitos Integrados, conhecido como Big Fund.

    Gráfico mostrando o investimento dos fundos estatais em semicondutores, destacando os valores em bilhões de dólares. Em 2014, o Big Fund I teve um investimento de US$ 1,53 bilhões. Em 2020, o Big Fund II investiu US$ 2 bilhões. Em 2022, o Big Fund III investiu US$ 4,7 bilhões, culminando com um investimento total de US$ 50 bilhões.

    Somente a terceira fase do fundo, lançada em 2024, mobilizou cerca de 344 bilhões de yuans (aprox. US$ 47 bilhões) para investimentos em semicondutores, somando-se às fases anteriores e elevando o apoio estatal a centenas de bilhões de dólares ao longo da última década.

    Empresas como a CXMT receberam bilhões em aportes diretos e indiretos, o que lhes permite operar com margens extremamente baixas, ou até prejuízo deliberado, para ganhar escala e mercado. No Ocidente, essa prática é frequentemente denunciada como dumping estatal, mas, do ponto de vista chinês, trata-se de soberania tecnológica.


    Guerra fria tecnológica e sombras do setor

    A reação dos Estados Unidos foi rápida e dura. Em 2022, a YMTC foi adicionada à “Entity List” do Departamento de Comércio, o que restringe severamente seu acesso a tecnologias, equipamentos e softwares de origem americana.

    Autoridades americanas e aliadas justificam essas medidas citando riscos à segurança nacional, transferência forçada de tecnologia e roubo de propriedade intelectual. A CXMT, por exemplo, já foi alvo de processos e investigações relacionadas a supostos vazamentos de segredos industriais ligados à Samsung, conforme reportado pela Reuters.

    Ainda assim, o setor de memória está longe de ser um exemplo de virtude. Os próprios gigantes ocidentais carregam um histórico de conluio de preços, multas bilionárias e práticas anticompetitivas documentadas ao longo das últimas décadas. Para muitos analistas, a China estaria apenas jogando o mesmo jogo — mas com um Estado disposto a bancar o custo.


    O grito do consumidor e o colapso das margens

    Enquanto governos e corporações disputam influência, quem sente o impacto imediato é o consumidor. Em 2025, o preço médio de um kit de 32 GB DDR5 chegou a quadruplicar em poucos meses, saltando de valores próximos a US$ 100 para mais de US$ 400, segundo dados agregados do PCPartPicker e de varejistas europeus como a Mindfactory.

    Gráfico mostrando a variação do preço médio da memória RAM DDR5 ao longo dos últimos 18 meses, com um aumento acentuado nos preços a partir de dezembro de 2022. A linha preta representa a média dos preços, enquanto as barras azuis indicam a faixa de preços registrados mensalmente.

    Em cenários pontuais e mercados específicos, houve relatos de kits ultrapassando US$ 1.000, tornando upgrades comuns financeiramente inviáveis. Pequenas montadoras de PCs, integradores e consumidores finais passaram a pressionar por alternativas.

    Nesse contexto, o preconceito tecnológico cedeu lugar ao pragmatismo. Em fóruns e comunidades online, usuários ocidentais passaram a defender abertamente que fabricantes chineses inundem o mercado com memória mais barata. Ironicamente, a melhor propaganda para a RAM chinesa foram os próprios preços praticados pelo oligopólio tradicional.


    Conclusão: a era da memória geopolítica

    A pergunta do título deixa de ser retórica. Há uma probabilidade crescente de que sua próxima memória RAM seja chinesa — não por afinidade ideológica, mas por necessidade econômica.
    A China demonstrou que, com vontade política e capital em escala continental, é possível quebrar barreiras tecnológicas complexas em menos de uma década.

    O consumidor global passa a enfrentar uma escolha inédita: continuar financiando um oligopólio caro ou aceitar componentes mais acessíveis, porém oriundos de um rival estratégico apoiado por um Estado autoritário.
    Nesta nova guerra fria dos chips, o mercado não será definido apenas por nanômetros ou gigabits, mas por tarifas, sanções e subsídios.

    A memória deixou de ser uma commodity invisível. Cada pente no carrinho de compras carrega, agora, um peso político.

    Bem-vindo à era da memória geopolítica.