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Sua próxima memória RAM será (Chinesa?)

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Mão colocando um módulo de memória em uma placa de circuito, com os logotipos da Samsung e da marca chinesa de tecnologia Huada Empreendimento visíveis nos módulos de memória. O fundo apresenta um mapa em tons azuis.

Com preços de memória RAM e SSDs atingindo níveis historicamente elevados, uma revolução silenciosa começa a abalar um mercado dominado há décadas por poucos nomes. Empresas chinesas, antes vistas com desconfiança, avançam rapidamente sobre o território de gigantes como Samsung, SK Hynix e Micron. Financiadas pelo Estado e impulsionadas por uma estratégia nacional de longo prazo, essas novas fabricantes prometem aliviar o bolso do consumidor — mas levantam questões profundas sobre dependência tecnológica e geopolítica.

Afinal, a China está prestes a ditar o preço da sua próxima atualização de PC?

Uma ilustração mostrando grandes figuras esculpidas em pedra representando as empresas Samsung, SK Hynix e Micron, que estão posicionadas à esquerda, enquanto à direita, um gráfico mostra uma tendência de crescimento da participação de mercado da China, com barras em ascensão. Duas figuras azuis, representando empresas chinesas como CAM e RTC, estão correndo em direção ao gráfico com uma expressão de determinação, simbolizando a competição no setor. O gráfico apresenta dados de 2016 a 2025, destacando uma participação de mercado superior a 5% para a China.

A disrupção de um clube fechado

Por décadas, o mercado global de memória foi um oligopólio altamente concentrado. Essa realidade começa a mudar. A CXMT (ChangXin Memory Technologies), fundada apenas em 2016, já alcançou cerca de 5% do mercado global de DRAM, segundo análises recentes da TrendForce sobre a evolução do setor entre 2024 e 2025.
O dado é significativo não apenas pelo volume, mas pela velocidade: em menos de uma década, a empresa reduziu a defasagem tecnológica em relação aos líderes para aproximadamente três anos e já produz memórias DDR5, algo antes considerado inalcançável para novos entrantes chineses.

No segmento de NAND flash, usado em SSDs, o avanço foi ainda mais agressivo. A YMTC (Yangtze Memory Technologies) chegou a atingir participação próxima de dois dígitos no mercado global, com sua arquitetura proprietária chamando a atenção de grandes integradoras internacionais. Em 2022, reportagens do Nikkei Asia revelaram que a Apple chegou a negociar o uso de chips NAND da YMTC, antes de a empresa ser incluída nas listas de restrição do governo americano.

A ideia de que “silício chinês” é sinônimo de atraso tecnológico começa a ruir — e rápido.


O punho de aço estatal por trás do avanço

Esse crescimento não é fruto apenas de empreendedorismo privado. Ele é a materialização da estratégia “Made in China 2025”, que identificou a dependência de semicondutores estrangeiros como uma vulnerabilidade estratégica.
Para corrigi-la, Pequim acionou seu principal instrumento financeiro: o Fundo Nacional de Circuitos Integrados, conhecido como Big Fund.

Gráfico mostrando o investimento dos fundos estatais em semicondutores, destacando os valores em bilhões de dólares. Em 2014, o Big Fund I teve um investimento de US$ 1,53 bilhões. Em 2020, o Big Fund II investiu US$ 2 bilhões. Em 2022, o Big Fund III investiu US$ 4,7 bilhões, culminando com um investimento total de US$ 50 bilhões.

Somente a terceira fase do fundo, lançada em 2024, mobilizou cerca de 344 bilhões de yuans (aprox. US$ 47 bilhões) para investimentos em semicondutores, somando-se às fases anteriores e elevando o apoio estatal a centenas de bilhões de dólares ao longo da última década.

Empresas como a CXMT receberam bilhões em aportes diretos e indiretos, o que lhes permite operar com margens extremamente baixas, ou até prejuízo deliberado, para ganhar escala e mercado. No Ocidente, essa prática é frequentemente denunciada como dumping estatal, mas, do ponto de vista chinês, trata-se de soberania tecnológica.


Guerra fria tecnológica e sombras do setor

A reação dos Estados Unidos foi rápida e dura. Em 2022, a YMTC foi adicionada à “Entity List” do Departamento de Comércio, o que restringe severamente seu acesso a tecnologias, equipamentos e softwares de origem americana.

Autoridades americanas e aliadas justificam essas medidas citando riscos à segurança nacional, transferência forçada de tecnologia e roubo de propriedade intelectual. A CXMT, por exemplo, já foi alvo de processos e investigações relacionadas a supostos vazamentos de segredos industriais ligados à Samsung, conforme reportado pela Reuters.

Ainda assim, o setor de memória está longe de ser um exemplo de virtude. Os próprios gigantes ocidentais carregam um histórico de conluio de preços, multas bilionárias e práticas anticompetitivas documentadas ao longo das últimas décadas. Para muitos analistas, a China estaria apenas jogando o mesmo jogo — mas com um Estado disposto a bancar o custo.


O grito do consumidor e o colapso das margens

Enquanto governos e corporações disputam influência, quem sente o impacto imediato é o consumidor. Em 2025, o preço médio de um kit de 32 GB DDR5 chegou a quadruplicar em poucos meses, saltando de valores próximos a US$ 100 para mais de US$ 400, segundo dados agregados do PCPartPicker e de varejistas europeus como a Mindfactory.

Gráfico mostrando a variação do preço médio da memória RAM DDR5 ao longo dos últimos 18 meses, com um aumento acentuado nos preços a partir de dezembro de 2022. A linha preta representa a média dos preços, enquanto as barras azuis indicam a faixa de preços registrados mensalmente.

Em cenários pontuais e mercados específicos, houve relatos de kits ultrapassando US$ 1.000, tornando upgrades comuns financeiramente inviáveis. Pequenas montadoras de PCs, integradores e consumidores finais passaram a pressionar por alternativas.

Nesse contexto, o preconceito tecnológico cedeu lugar ao pragmatismo. Em fóruns e comunidades online, usuários ocidentais passaram a defender abertamente que fabricantes chineses inundem o mercado com memória mais barata. Ironicamente, a melhor propaganda para a RAM chinesa foram os próprios preços praticados pelo oligopólio tradicional.


Conclusão: a era da memória geopolítica

A pergunta do título deixa de ser retórica. Há uma probabilidade crescente de que sua próxima memória RAM seja chinesa — não por afinidade ideológica, mas por necessidade econômica.
A China demonstrou que, com vontade política e capital em escala continental, é possível quebrar barreiras tecnológicas complexas em menos de uma década.

O consumidor global passa a enfrentar uma escolha inédita: continuar financiando um oligopólio caro ou aceitar componentes mais acessíveis, porém oriundos de um rival estratégico apoiado por um Estado autoritário.
Nesta nova guerra fria dos chips, o mercado não será definido apenas por nanômetros ou gigabits, mas por tarifas, sanções e subsídios.

A memória deixou de ser uma commodity invisível. Cada pente no carrinho de compras carrega, agora, um peso político.

Bem-vindo à era da memória geopolítica.

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